Novidades

Os reflexos da ausência de cerimônias de despedidas para famílias enlutadas

Os reflexos da ausência de cerimônias de despedidas para famílias enlutadas

09 de setembro

Os reflexos da ausência de cerimônias de despedidas para famílias enlutadas

A pandemia não trouxe somente o medo do contágio pelo coronavírus, mas impôs mudanças que afetam até a forma de expressar sentimentos tão legítimos, quanto à perda de entes queridos  

 

Desde o início da pandemia, as cerimônias de despedidas precisaram ser alteradas. Aquele momento de abraços, prestar um apoio mais próximo dos familiares enlutados e transmitir palavras de conforto foi adaptado, obedecendo à necessidade de distanciamento social. Nos casos de vítimas da Covid-19, os velórios chegaram a ser impedidos e somente agora foram autorizados. Para outras situações, a duração e a quantidade de pessoas foram restringidas. O que, aparentemente, seria apenas um ajuste de ocasião, para muitos é motivo de inquietações e angústia.

A psicóloga Mariana Simonetti exemplifica o sentimento de perda, agravado pela impossibilidade da despedida: “Os rituais fúnebres são importantes para o processo de luto, pois dão a ideia de concretude à finalização de um ciclo. Neste contexto, quando eles não podem acontecer, como antes da pandemia, geram um efeito complicador do luto para pessoas apegadas à antiga forma de despedida” comenta a profissional, que é especialista em luto.

Sendo a dor da perda de um amigo ou parente naturalmente desafiadora na adaptação, não contar mais com a presença física de alguém muito próximo pode ser outro dificultador. De acordo com Mariana, “o luto é a quebra de um vínculo, que pede que aprendamos a lidar com a falta e a saudade de alguém querido. Quando perdemos mais de um ente, todo esse aprendizado precisa ser multiplicado. No caso da pandemia do novo coronavírus, quando a causa das mortes é a mesma, também existe a possibilidade de desenvolver sentimentos ainda mais negativos, a exemplo do medo excessivo”. A psicóloga ressalta, porém, que isso não acontece com todas as pessoas.

Outra realidade vivida nos últimos meses é o luto coletivo. Com o aumento no número de brasileiros mortos pela Covid-19, fica cada vez mais difícil não ser afetado por este cenário desolador. Acompanhar, mesmo que distante – ou por meio de notícias divulgadas na imprensa – traz o luto para pessoas que não perderam ninguém, entre seus familiares ou círculo de amigos. O que fazer nestes casos? “É necessário dar espaço de fala para o luto. Se percebemos alguém, em nossa casa, sofrendo com a dor que muitos estão enfrentando neste momento, é importante conversar e reconhecer o que está sendo falado. A ideia é realmente acolher e reconhecer essa dor, sem minimizar ou colocar a pessoa afetada para baixo, pois se trata de sentimentos legítimos”, orienta Mariana.

Para os pacientes em estado grave da Covid-19, em que as hipóteses de vencer a doença são muito delicadas, surge o que a psicologia chama de “luto antecipatório”. Uma forma de preparação para aceitar aquilo que vai se confirmando como algo, infelizmente, inevitável. “Uma forma de estar preparado é não negar os efeitos da doença. Às vezes, a pessoa está com alguém bem debilitado no hospital, com chances pequenas de sobreviver. É importante conversar sobre o que pode ocorrer, mas sem perder a esperança. Há uma linha tênue que precisa ser observada entre manter a esperança e entrar em contato com a realidade. Refiro a conversa sobre a possibilidade de perda, a fim de que a aceitação não seja intransponível, por mais difícil que possa parecer. Isso não significa que a dor vai ser maior ou menor, afinal ela não pode ser medida. Mas precisamos encontrar forças para enfrentá-la”, finaliza Mariana Simonetti.

 

Fonte: Portal Pantim

 

Voltar